(Diversos) A evolução do mal

Por: Claudemir Ferreira 25/07/2016

Vou dar início a esse texto falando um pouco sobre literatura e cinema. Em seguida farei um paralelo com a realidade cotidiana e a visão que temos sobre fatos que acabam por moldar o mundo a nossa volta. E o que isso tem a ver com a evolução do mal a que o título se refere? Tenha calma, caro leitor. No fim do texto os ciclos se fecharão.


Vamos lá. No cinema, quando assistimos a algum filme que explore a temática heróis x vilões, a própria história é construída no sentido de nos levar a esperar que o herói sobressaia e o vilão seja punido. A maioria dos filmes norte-americanos segue essa linha. O caráter dos heróis ou dos vilões sofre algumas modificações no passar dos anos, mas a ideia central permanece na maioria dos filmes; o bem triunfa sobre o mal. O filme acaba e vamos para casa dormir tranqüilos


A temática do bem e do mal também está presente na literatura. Vários escritores de diferentes países já trataram desse tema. Desde a Grécia antiga, passando por Roma, pela idade média até chegar aos dias atuais, a literatura também tem feito uso desse antagonismo. Se bem que, tanto no cinema quanto na literatura, nem sempre o bem prevaleça sobre o mal. Algumas vezes, o desfecho da história não é tão agradável à nossa consciência. Não nos traz conforto, muito pelo contrário; traz inquietação, fazendo-nos, ou forçando-nos, a enxergar as coisas sob outro ponto de vista, e não como elas deveriam ser, ou como gostaríamos que fossem.


Não sei dizer com exatidão o número de livros que já li e o número de filmes que assisti. Acho que ninguém sabe, não é mesmo? Já vi histórias com os mais variados tipos de personagens, mas quero aqui falar um pouco sobre um dos personagens mais filho da puta da literatura. Desculpe-me a palavra de baixo calão, mas é difícil usar eufemismos para falar deste sujeito. E acredite, filho da puta já é um eufemismo quando se trata de tal personagem que, se não for o mais crápula de toda a literatura, está em segundo ou em terceiro lugar.


Seu nome é Thénardier, personagem de Os Miseráveis, livro de Victor Hugo, escritor francês do século 19. Não vou dizer aqui todos os pormenores do livro e detalhar todas as perversidades desse personagem vilanesco. O fato é que ele faz todo e qualquer tipo de maldade, até aquelas as quais o leitor possa pensar que um ser humano não seja capaz de fazer com outro ser humano. Mas ele o faz, e faz com satisfação. E o que pode desagradar ainda mais os leitores do romance em questão, é que no fim da história, mesmo Thénardier tendo posto em prática todo o seu ódio, toda a sua maldade, ele ainda sai lucrando. E por quê? Mas como? Se ele é o vilão, deveria terminar vencido. Deveria, mas não termina. Ele faz o que faz e no fim sai lucrando por um simples motivo: na narrativa, falando de uma maneira bem simplista,Thénardier é um dos representantes do mal, e o mal também evolui, também se adapta, também segue uma escala de aperfeiçoamento. Essa não é uma teoria muito fácil de aceitar, mas acredito eu, que ela esteja mais de acordo com a realidade que nos cerca.


Mas por que digo isso? O que a literatura e o cinema têm a ver com o mundo a nossa volta? O que podemos aprender com essas histórias? Literatura e cinema são nada mais do que arte, e como tal, têm finalidade unicamente artística, não têm nenhuma aplicabilidade prática, não é mesmo? Perguntam-se alguns.


É claro que tudo isso é verdade. Literatura e cinema não passam de manifestações artísticas. E uma vez aceitando a arte como sendo o reino da subjetividade, a aplicabilidade que podemos tirar também é subjetiva. Ou seja, podemos tirar algum aprendizado, ou uma simples reflexão, e no máximo transportar isso para nossas vidas, no nosso modo de agir e de enxergar o mundo. Apenas isso.


O que eu aprendi com o livro de Victor Hugo é que o mal também evolui. Assim como o bem, ele segue adiante; impregnado no ser humano. Vou explicar melhor dando um exemplo, (exemplo bobo). Suponhamos que se faça uma lista com o intuito de indicar a manifestação mais contundente do mal nos dias atuais. Acredito eu, que o terrorismo apareceria em primeiro lugar. O terrorismo já existe há algum tempo, mas foi em 11 de setembro de 2001 que ele mostrou ao mundo, principalmente ao mundo ocidental, qual era o seu propósito aqui na Terra; destruição, apenas isso. Pode até existir pessoas que acreditem que eles tenham outras intenções; eu não.


O terrorismo é o grande mal, e o maior representante desse mal no mundo respondia pelo nome de Al Qaeda, e seu líder era Osama Bin Laden. Bin Laden foi morto pelo exército norte-americano em 2011. Se fosse um filme, poderíamos dizer que o bem triunfou sobre o mal, mas a ideia aqui é outra, pois o mal não foi vencido. Quando você acha que a maldade humana já chegou a um nível em que não há mais como transpor, surge uma brutalidade ainda maior. O fato é que Bin Laden morreu e o terrorismo continua em plena atividade. Basta observar que o número de atentados terroristas aumentou significativamente de uns anos pra cá. Não quero falar dos fatores que contribuíram para tal aumento. A minha intenção aqui é mostrar que o mal passou para outro nível.


O mal absoluto e expressamente declarado responde hoje pelo nome de Estado Islâmico, ou ISIS, como queira. Não gostaria de relatar todas as crueldades destes autênticos inimigos da humanidade, mas vou citar apenas algumas de suas atitudes, das quais eles se orgulham. São elas: decapitação e crucificação de crianças; estupro, assassinato e crucificação de adolescentes cristãs, perseguição e assassinato de cristãos, apenas por serem cristãos, atentados terroristas não somente no oriente, mas também na Europa, e por aí vai. Para os curiosos de plantão, há vídeos na internet mostrando os feitos dessa corja. Mas se você é do tipo estômago fraco, não veja.


Um cidadão comum, quando se dá conta do que eles são capazes, é tentado a estabelecer uma visão trivial em que o Estado Islâmico seria o mal absoluto de um lado, e do outro lado as pessoas de bem que lutam contra ele, ( as narrativas cinematográficas permeiam nosso imaginário desde muito cedo). Mas a realidade tem outras cores amigo, a realidade não é trivial. Definitivamente não é. Você vê o mal se manifestando, e vê pessoas se manifestando contra o mal, mas ao mesmo tempo é possível perceber um mal maior ainda sendo germinado, preparando a sua escalada, pronto para a substituição.


Perceba que mesmo sendo o Estado Islâmico um inimigo declarado de cristãos e da cultura ocidental, ainda assim, é comum entre nós, muitos se referirem a eles com eufemismos, sugerindo que talvez eles não sejam tudo isso que dizem que são. Ou essas pessoas estão apenas sendo influenciadas pelo politicamente correto, o que seria uma completa falta de noção, ou elas simplesmente concordam e aprovam todas as atitudes destes assassinos, por mais cruéis que sejam. Vemos as notícias no jornal, na internet, vemos todas as brutalidades cometidas contra pessoas indefesas, contra mulheres, crianças e idosos, pessoas que não estão em guerra com ninguém, e ainda assim vemos representantes do povo usando eufemismos e tentando suavizar a situação, tentando fazer as pessoas acreditarem que a situação não é tão assustadora assim, que extremistas são minoria, que a maioria do povo islâmico é pacífica. Eu vejo nestas atitudes o mal maior preparando o terreno. O carrasco que acaricia a vítima que vai ser decapitada.


No fundo, estas pessoas, que tentam de alguma maneira suavizar a percepção que outros tenham a respeito do ISIS, concordam com todas as suas atitudes, e acham justificável tudo o que eles praticam. O que querem é lucrar de alguma maneira, por menor que seja o lucro, porque no fim das contas há uma convergência de interesses. O mal lucra com a maldade, sempre lucra.


Aqueles que falam em minoria radical e maioria pacífica esquecem de descrever como são formadas essa minoria e essa maioria. A maioria pacífica não fará nenhuma diferença se a minoria radical for composta por pessoas em posições de comando. Se as lideranças minoritárias forem radicais, a maioria pacífica irá com eles, porque pertencem ao mesmo povo e compartilham a mesma crença. Raramente você vê a maioria pacífica se pronunciando contra a minoria radical. Simplesmente se calam. Não podem ir contra seu próprio povo, e se algum dia tiverem que optar entre seus semelhantes radicais a pessoas de outras culturas, o mais provável é que fiquem com a primeira opção.


Eu não sou um cristão muito exemplar, mas ainda assim sou um cristão. O Cristianismo me ensinou que a árvore má não pode dar bons frutos, e que colhemos o que plantamos. Estas pessoas que se referem ao Estado Islâmico com eufemismos, usando palavras suaves quando descrevem suas atitudes, chegam ao cúmulo de dizer que é preciso dialogar com eles, como se fosse possível o diálogo com quem não está disposto a dialogar, com quem já está em guerra declarada contra todos os infiéis, os quais, na visão deles, podem ser quaisquer pessoas que tenham crenças diferentes da deles.


De qualquer forma, fica a dúvida; qual a intenção de uma pessoa que defende o diálogo com decepadores de cabeças? Não dá pra acreditar que foi apenas um descuido, uma maneira inadequada de se expressar, ou uma gozação sinistra. Dialogar com pessoas que estão crucificando crianças? Como?


O leitor já deve ter feito a conexão. Essa pessoa que defendeu o diálogo com assassinos foi ninguém menos que nossa presidente afastada. Isso foi em 2014. Gostaria de saber qual é a opinião dela hoje. Defender o diálogo com assassinos de cristãos, sendo governante maior de um país em que praticamente 90% da população é cristã, definitivamente não pegou bem. Mas novamente repito; não foi um erro, não foi um descuido. Foi uma manifestação consciente, intencional. E sendo intencional, há algo de muito perverso nisso tudo.


Concluindo, faço uso de um discurso de caráter religioso, por não encontrar outras palavras que, no momento, possam sustentar meu ponto de vista com mais propriedade. O autêntico cristão não é uma pessoa santa, nem tenta parecer santo. Mesmo errando, ele se arrepende, e busca fazer a coisa certa, seguindo os ensinamentos de Jesus Cristo. E Jesus ensinou que pelos seus frutos os conhecereis.


Mas voltando ao início antes de fechar o ciclo, e como eu já disse, a realidade não é trivial. Não é como no cinema ou na literatura em que o bem triunfa sobre o mal. Muitas das vezes, o mal pode ser camuflado; já que nem toda maldade é declarada. Nesse caso, para reconhecê-lo, basta conhecer os seus frutos.

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