(Divulgação) Glamour

Por: Claudemir Ferreira 19/12/2016

Extraído do livro Contos sobre temas diversos

Numa sala de um estúdio de cinema, entram o diretor e o produtor; pensativos e preocupados. Eles se sentam e ligam o aparelho de TV instalado na parede. Assistem às cenas do filme que está em processo de finalização. Depois o diretor desliga o aparelho. O silêncio corta o ambiente, interrompido apenas pelo tique taque de um relógio de parede. O diretor toma a palavra.
— O que você achou? – pergunta, apreensivo, ao produtor.
— Não está bom – este responde.
— Mas já estamos em fase de finalização. Não podemos mais adiar a estreia.
— Já disse que não está bom. Teremos que fazer alterações.
— Que tipo de alterações? O que há de errado?
— Está muito violento.
— Mas é um filme violento. É a clássica luta entre o bem e o mal. Tem lutas corporais, explosões e tiros.
— Não está bom. Está muito...muito... qual é mesmo a palavra?
— E eu é que sei?
— Real. Está muito real. Verossímil demais. Não pode ser assim.
— Não estou entendendo.
— Não pode ter sangue.
— Mas tem armas no filme. Qualquer um sabe que se você atirar em uma pessoa, ela irá sangrar.
— E daí?
— Daí que tem que ter sangue.
— Sangue assusta as pessoas. E teremos problemas com a censura. Quero atrair todas as faixas etárias.
— Isso não será possível.
— Então o mais próximo disso.
— Violência sem sangue. Não sei como farei isso.
— Confio em você.
— Mais alguma coisa?
— Deixe-me pensar.
O silêncio e o relógio.
— Lembrei – diz o produtor.
— Então me diga – responde o diretor.
— As lutas.
— O que têm elas?
— Também estão muito naturais. Parece UFC.
— UFC está na moda. As pessoas assistem.
— Não quero que esse filme seja visto apenas pelos fãs de UFC. Quero todos os públicos.
— Não sei o que posso fazer em relação a isso – responde o diretor, com ares de desânimo.
— Faça com que as lutas sejam mais coreografadas. Como se fosse um espetáculo. Entendeu?
— Como um balé?
— Mais ou menos isso. Como se estivessem dançando, mas não estão dançando, estão lutando.
— Verei o que poso fazer.
— É isso aí. Confio em você.
O silêncio toma conta da sala outra vez, e o tique taque se torna mais presente.
— Vou providenciar as alterações no roteiro – diz o diretor, levantando-se.
— Espere, lembrei de mais uma coisa.
— O que é agora? – o diretor novamente se senta.
— O figurino.
— O que tem o figurino?
— Também não está bom.
— Mas passamos meses trabalhando no figurino. Não podemos simplesmente mudar assim.
— Mude. Coloque terno e gravata. Tem que ser bonito, elegante, glamoroso. Tem que agradar aos olhos. Mas por que estou dizendo isso a você? Não tem o menor senso estético.
— Vamos precisar de mais dinheiro.
— Já te dei milhões.
— Vamos precisar de mais.
— Verei o que posso fazer. Mas sugiro que seja criativo.
— Eu sou criativo. Mas não faço mágica. Entendeu? – diz o diretor, em tom irônico.
— Entendi. Só não se esqueça de colocar terno e gravata.
— Em quais personagens?
— Nos heróis e nos vilões.
— Até nos vilões?
— Isso mesmo.
— Quer que eles lutem de terno e gravata?
— É como eu disse; elegância. Tem mais uma coisa.
O diretor suspira.
— Diga. O quê mais?
— A cena em que o protagonista acerta um tiro no peito de seu arquirrival, quero que seja em câmera lenta.
— Deixe-me ver se eu entendi; quer um assassinato em câmera lenta?
— E sem sangue.
— Estamos fugindo do propósito do filme.
—Eu estou investindo muito dinheiro aqui. Tenho que ter um retorno significativo. Confie em mim. Sei do que estou falando.
— Isso não faz o menor sentido.
— Não tem que fazer sentido. Só tem que agradar ao público.
— Mais alguma coisa?
— Deixe-me pensar.
Tique taque. Tique taque. Tique taque.
— A cena de amor entre o protagonista e sua amada – diz o produtor.
— O que tem ela?
— Está muito curta. E o beijo está sem sal. Tem que ter paixão. E a música de fundo tem que ser mais melodramática. Você deveria saber disso. É básico.
— Farei as alterações.
— Acho que por enquanto é só isso.
— Tem certeza?
— Sim. Qualquer coisa eu te procuro para uma nova reunião.
— Que seja então.
Os dois se levantam. Vão em direção à porta. Abrem, e saem pensativos e preocupados.
Tique taque. Tique taque. Tique taque.

smith

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