Diário RBC

(Diversos) Caçadores ou comedores de carne?

Por: Claudemir Ferreira 13/08/2016

“Eu não cheguei ao topo da cadeia alimentar pra ficar comendo salada.


Já ouvi e já li muito sobre esta frase. Na maioria das vezes, é uma resposta ou uma reação natural às críticas feitas por veganos ou vegetarianos ao consumo de carne. Eu não como carne, nem por isso critico quem come. Mas às vezes me pergunto: será que essas pessoas que comem carne estão mesmo no topo da cadeia alimentar?


Quantas pessoas nos dias de hoje são caçadores de fato? Poucas. E muitos dos que praticam a caça atualmente, praticam-na como uma diversão. Matam apenas pra ver o corpo cair. Matam para praticar a mira. É pra isso que serve a caça esportiva.


Acredito que a cada dia que passa existam menos caçadores e mais comedores de carne, e há uma grande diferença entre esses dois tipos. Mas os comedores de carne falam como se fossem autênticos caçadores, como se o simples fato de comer carne os colocasse no topo da cadeia alimentar, só que não é bem assim. Alimentar-se de um animal não te coloca no topo da cadeia alimentar, se não foi você que matou. É isso mesmo, para se estar no topo é preciso matar, e matar é um trabalho sujo. É tão sujo que a maioria das pessoas não têm coragem de matar um animal, ou evitam-no até o último recurso. Sei do que falo. Já abati animais, e é realmente um trabalho custoso, desagradável.


Quando se mata um animal, percebe-se o quanto a vida é frágil, o quanto é fácil pôr fim a ela. É simplesmente fácil, e existem inúmeras maneiras de fazer isso. Se bem que nem todos têm essa percepção, alguns parecem estar ligados no automático, não prestam muita atenção ao que estão fazendo. Mas o fato é que essa coisa maravilhosa que se chama vida desaparece em um segundo. Num momento tudo é vivo, palpitante e cheio de movimento. No outro não passa de um objeto imóvel, sem calor, sem vontade, e em poucas horas entra em processo de decomposição, até sobrar apenas cabelos e ossos, como diria Augusto dos Anjos; na frialdade inorgânica da terra.


Além de perceber o quanto a vida é frágil, você também percebe, rapidamente, que, de alguma forma, você transpôs um limite e não tem mais como voltar. É um antes e um depois. Acredito que todos que têm de matar um animal também têm essa percepção, porém nem todos a prolongam. É um rápido momento de introspecção, e se você parar pra pensar e dar continuidade a essa visão, você provavelmente só matará um animal se for realmente necessário.


O sangue é de fato um elemento simbólico, e há algo de muito pesado em derramá-lo. Ele já fez e ainda faz parte de muitos ritos de passagem. Em algumas antigas civilizações, e também em tribos que restam nos dias de hoje, só depois de abater um animal é que o jovem integrante é considerado um exímio caçador e merece ser respeitado como tal em sua tribo. Nas antigas tribos Celtas, para ser aceito como um guerreiro pronto para ingressar na vida adulta, o jovem tinha que ir até a tribo vizinha, matar um de seus integrantes e arrancar-lhe a cabeça. Bom , matar um animal é muito diferente de matar uma pessoa, mas matar é matar. A vida tem peso.


Eu não sonho viver em um mundo sem crueldade, sem matança e sem sofrimento, e nem acho que isso seja possível. Só não aprovo a crueldade gratuita. Em tempos de politicamente correto, falar em crueldade gratuita não soa muito bem, mas isso existe sim.


Também acredito que a finalidade primordial da vida seja a sobrevivência, tanto do indivíduo quanto da espécie. Isso é tão natural que nem pensamos a respeito. Não ingerimos um delicioso prato pensando em garantir nossa sobrevivência, assim como não temos filhos pensando em garantir a sobrevivência da espécie, simplesmente fazemos tudo isso e garantimos o prolongamento de nossa existência sem pensar muito. Mas nós, seres humanos, muitas vezes buscamos dar sentido às nossas ações. Um sentido e uma finalidade que vão além da simples luta pela sobrevivência.


A vida faz sentido de forma bem significativa quando nossas atitudes refletem nossas palavras, e nossas palavras refletem nossas atitudes. É a chamada coerência. Viver o que se prega, dar o exemplo, dar testemunho, agir de acordo com suas palavras.


Se dar um sentido e uma finalidade à vida é algo tão importante, também é importante dar um sentido e uma finalidade à morte. Matar sem finalidade, acredito eu, não é muito certo. Observe que somente o homem age assim. Os animais só matam para se alimentar ou para se protegerem. Eles não matam porque gostam de matar. Matam porque é necessário.


Aqueles que praticam a caça por esporte, costumam dizer que gostam de sentir a emoção da caça, e com certeza fazem uso de uma arma que não oferece chance alguma ao animal que estão caçando. Na verdade, isto não é caça. É a pura e simples procura por uma vítima. Não é predação, é extermínio. É a prática gratuita da crueldade. É matar por matar, apenas pra ver o corpo cair. É o completo desprezo pela vida de um ser apenas para satisfazer um capricho. É o ser humano soltando sua besta interna.


A minha vida é importante para mim e para a sobrevivência da minha espécie. A vida de um animal é importante para ele e para a sobrevivência de sua própria espécie. Se um dia eu tiver que escolher entre a minha vida e a vida de um animal, escolherei a minha, assim como o animal, que tiver que escolher entre a vida de um ser humano e a vida dele, escolherá a dele, óbvio. Mas não vivemos em épocas tão extremas assim, e o mais provável é que, a longo prazo, a expansão humana elimine todos os animais selvagens, restando apenas os domésticos, ou talves nem estes.


Quanto à arrogância dos comedores de carne, faço apenas um pedido; óh grandes predadores humanos, tenham misericórdia desse humilde comedor de folhas!

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