ED59 - Dezembro de 2013

"São apenas sonhos, ilusões e mesmo assim são responsáveis por tanta transformação!" - Pamela Sobrinho

Ilustração: Maurits Cornelis Escher

Escher

BUQUÊ SUBULATA
Tiago Henrique - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. - thvirtual.com
A FONTE DA NOITE (página 69)

Ossos cansados
Olhos arregalados
Estátuas de anjos
Imagens estranhas

Pensamento lento
Calor escaldante
Frio que se desfaz
Num suor interrompido

Gelando o coração,
Gelo meus dedos,
Um ataque cardíaco
Uma poesia mal feita.


COLUNA DA PAMELA
https://www.facebook.com/pamela.sobrinho.9

Quando eu digo que eu não creio as pessoas olham de uma maneira torta, quando eu digo que eu não creio, eu não creio nas mentiras contadas para persuadir as pessoas a aceitarem um sistema cheio de erros, a aceitar a violação de meus princípios, quando digo que eu não creio, digo aos meus superiores, suas lavagens cerebrais não se aplicam ao meu cérebro, quero dizer que para ser boa ou ajudar o próximo eu não preciso crer, eu preciso agir, dizer que algo te ajude não muda o mundo, ou colocar a culpa da maldade humana em algo que não é tangível é uma maneira torta de se redimir de seus próprios demônios.

As pessoas estão facilmente acostumadas a não correr atrás porque elas creem, creem que as coisas vão melhorar, creem que um dia as coisas vão se tornar mais fáceis, creem demais e agem de menos. Não é uma critica ao crer, é uma critica ao cego, é uma critica àquele que acorda de manhã e acha que num passe de mágica a vida dele vai se transformar, é uma critica àquele que acredita num algo depois desta passagem e deixa de aproveitar os melhores anos que a vida pode oferecer, é aquele que acredita cegamente em algo que não se pode ver. Será falta de fé? Ou será apenas que estou enxergando além dos que as pessoas que creem podem ver?

Entendo que as mudanças devem ser feitas hoje e nunca amanhã, creio que a transformação é interna, que ela começa em mim para depois seguir para o outro, significa que a vida é um processo de transformação diária, e que não deixarei de fazer hoje esperando que amanhã seja um dia de mudanças. Mudo constantemente porque eu não creio, mudo porque eu ajo.

ESPAÇO ABERTO

Chuva que lava a alma..

Kilze Guimarães Fortunato - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Chuva que lava a alma...
Leva contigo hoje toda amargura, tristeza e lágrima
Limpa meu deserto pessoal e transforma num oásis
Carrega consigo minhas dores, pois já não as agüento mais
Chuva que lava a alma...
Arrasta em sua enxurrada meus problemas
Deixa apenas soluções que nem precisam ser mirabolantes, apenas soluções
Deixa também minha alegria que sei que ainda existe embaixo disso tudo
Chuva que lava a alma...
Lava também com cuidado meu coração
Por favor, leva tudo! Tudo! Tudo!
Deixa apenas o amor porque sem ele nada sou.

Vazio

Pamela Sobrinho

Estamos cansados de nos sentirmos sozinhos, estamos num mundo ao qual a solidão faz parte do nosso cotidiano, estamos tão desesperados para não nos sentirmos sozinhos, que procuramos loucamente um aconchego em qualquer lugar, qualquer um serve, qualquer coisa nos acalma, o simples fato de ter alguém do nosso lado basta para nos completar, acabou a amizade e o companheirismo o que restou foi uma carência insuportável para nos manter juntos a qualquer preço. Onde está o amor? Em qualquer lugar onde o ser humano não tem acesso e nós simples mortais não iremos alcançar e destruir como destruímos nossas relações, onde o homem sem escrúpulos não alcance, onde os ignorantes não consigam chegar, onde os arrogantes nunca terão espaço, esse é o lugar que os deuses resolverão esconder o amor, dentro do nosso próprio coração, o lugar mais seguro, aonde os homens nunca vão, onde apenas os racionais frequentam, onde apenas os sábios conhecem aonde apenas os sensatos vão. Agora você descobriu o caminho do amor, basta achar alguém que corresponda suas expectativas, porém meu caro amigo encontrou outra missão complexa e interminável encontrar a metade do seu ser que os deuses separaram no passado, sua parte perdida no mundo, sua procura incansável pela outra metade da sua alma perdida, longa e interminável corrida contra o tempo,mas com frutos agradáveis.

Da soma para a subtração

Baltazar José Filho - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Chegando o fim do ano resolvi partilhar com os leitores da Betim Cultural um belo texto de Rubem Alves.

No fim do ano, por razões alheias a minha vontade, meu corpo passa por uma metamorfose. Fico diferente. Sinto que o seu software é trocado.

Software é uma palavra inglesa que indica o programa, a lógica com que o computador trabalha. Durante o ano meu corpo é movido por um software que só conhece a lógica da “soma”. Somo o tempo todo. Ajunto coisas. Não jogo nada fora. Faço anotações. Não me esqueço. A memória é também um jeito de somar.

São duas as razões que me levam a ajuntar. A primeira é o amor. Guardo porque amo. É o caso das cartas que me chegam. São cartas de gente que me quer bem. Dizem-me coisas boas que me fazem feliz. O amor não pode ficar sem resposta. O certo seria responder às cartas no exato momento em que as leio e fico feliz. Mas a vida tem urgências maiores que as do amor. As cartas ficam sem resposta. Aí o jeito é ajuntá-las em pilhas, para serem respondidas no futuro. Mas o que valeu para um dia vale para todos. As pilhas vão crescendo sem parar. O ano chegou ao fim. A pilha está enorme. As cartas ficaram sem resposta.

A segunda é a razão da utilidade: é possível que o objeto que tenho nas mãos, de utilidade duvidosa, possa vir a ter algum uso no futuro. Assim, valendo-me do benefício da dúvida, guardo-o. Ao fim do ano minhas gavetas estão um bagunça que não entendo, entupidas com uma quantidade inacreditável de objetos variados que, por vergonha, não vou listar.

Mas agora quando o ano termina...

(Termina? Trata-se, evidentemente, de uma ilusão dos homens, que acreditam que o seu jeito de marcar o tempo representa o bater do coração do universo – daí a festança, o champanhe, a comedoria. Acreditamos mesmo que um certo tempo está agonizante: um velho malvado cuja morte cuja morte é saudada com festas. Agora vem outro tempo, recém-nascido, páginas em branco, sem memória, contas zeradas, e tudo vai mudar. É somente essa crença infantil que explica a enorme barulheira que se faz pelo motivo da troca de calendário – porque é só isso que acontece, calendário velho no lixo, calendário novo na parede; as estrelas, relógios do tempo, tudo ignoram, e continuam a nos contemplar com os mesmos olhos indiferentes e silenciosos com que sempre nos contemplaram, para horror de Pascal...)

...mas como eu dizia, agora quando o ano termina, muda meu software. O programa da “soma” é retirado e, no seu lugar, começa a funcionar o programa da “subtração”. O programa da “soma” é feitiço danado, quanto mais ajunta mais pesado fica, a gente vai perdendo a leveza, o andar fica difícil, é gordura e músculo demais, o corpo afunda, por o peso ser em demasia. Quem soma é o demônio. Já o programa da “subtração” é o contrário: ele quebra o feitiço da soma, a gente emagrece, fica leve, as escamas caem, o coscorão se descola, o corpo perde músculo e ganha asas. A “soma” nos faz envelhecer. A “subtração” nos faz voltar a ser crianças. O diabo soma: tem uma contabilidade implacável que não esquece. Deus subtrai. Não tem contabilidade. Todo perdão é esquecimento.

As pilhas de cartas: até uns dias, atrás possuído pela lógica da soma, eu olhava para elas e ficava angustiado. Elas me diziam que havia um dever a ser cumprido. Carta de amor ter de ser respondida. A pilha de cartas me dizia que eu não cumprira o meu dever. Mas, de repente, foi-se a lógica da soma e a lógica da subtração tomou o seu lugar. Álvaro de Campos concorda.

Ah! A frescura na face de não cumprir um dever!

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora...

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação...

Assim abandono-me à graça da “subtração”. Olho, com um olhar de despedida, para as cartas que o senso do dever me obrigava a responder: vou entregá-las ao esquecimento. Vou subtraí-las do lugar que ocupam. Não mais ficarão ali, à minha frente, como um libelo. Tomo-as carinhosamente nas mãos e vou me despedindo de cada uma delas. Releio passagens e sorrio, alegre de novo. Peço perdão aos amigos que me escreveram. As cartas vão ficar sem resposta escrita, muito embora a resposta de coração já tenha sido dada, na alegria que me causaram. Não se trata de falta de amor. É que eu não sou senhor do tempo. Preciso de mais tempo do que tenho. Nem mesmo o amor pode com ele. É dessa impotência do amor diante do tempo que nasce da arte.

Tempus Fugit – essa frase latina está gravada numa placa de madeira na porta do meu consultório: o tempo foge. Eu a vi pela primeira vez, num daqueles relógios antigos que tocavam carrilhão a cada quarto de hora, repetindo monotonamente: “tempus fugit”, “tempus fugit”. Diz um salmo bíblico: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios.

Continua na próxima edição.

Texto extraído de:ALVES, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 8. ed. Campinas SP: Papirus, 2002.





COLUNA VEGETARIANA
Assista: http://www.terraqueos.org/


*FAÇA DOWNLOAD DE TODAS AS EDIÇÕES DA RBC, CLIQUE AQUI
(http://www.4shared.com/dir/9mm2HE1N/RBC_Memria.html)

EDIÇÃO PUBLICADA POR
PAMELA SOBRINHO ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. )